domingo, 22 de julho de 2007

Variações/Variedades Lingüísticas e seus preconceitos

A língua varia no espaço, criando diferentes dialetos e essa variação pode ser vista principalmente entre as diferentes regiões e/ou classes sociais, podendo ser assim chamada de Variação Geográfica ou Diatópica e Variação Social ou Diastrática.
A variação geográfica ou diatópica está relacionada às diferentes formas de fala existentes entre falantes de diferentes regiões geográficas, como por exemplo, o português falado no Brasil e o Português de Portugal, ou até mesmo entre os estados brasileiros cada qual com suas particularidades na fala.
Segundo Alkmin (2001), "qualquer língua, falada por qualquer comunidade, exibe sempre variações (..), é representada por um conjunto de variedades", o que é facilmente percebido de uma região para outra.
Existe ainda a Variação Social ou Diastrática, que para Alkmin "tem a ver com a identidade dos falantes" e leva em conta a classe social, idade, sexo e situação de contexto social.
Levando em conta isso, trataremos aqui do preconceito existente entre os diferentes modos de falar. Alkmin afirma que o preconceito lingüístico é um fenômeno negativo. Pois "a homogeneidade lingüística é um mito, que pode ter conseqüências graves na vida social".
Para Bagno (2001) a escola é um dos meios que mais descrimina o aluno que conhece não o português "padrão" excluindo ou deixando de lado os que não sabem essa norma "culta" da língua.
Esse preconceito é facilmente observado quando pessoas que tem conhecimento do português padrão acham engraçado quando uma pessoa do interior ou de uma classe social menos favorecida diz "prantá" ao invés de plantar. Ou quando um falante aqui do sul ouve um nordestino falando "méladu" ao invés de melado.
Para a maioria dos lingüistas atuais, essas diferenças fonéticas são irrelevantes, pois o mais importante não é falar "correto", ou seja, a norma considerada padrão e sim, fazer-se entender.
Levando em conta ainda o preconceito lingüístico, a língua falada vem sofrendo uma "economia" no que diz respeito aos plurais. Para Bagno, cortar alguns plurais "é mais sóbrio, mais econômico, mais modesto, menos vaidoso". Ele afirma que a regra de plural do português não-padrão é "marcar uma só palavra para indicar um número de coisas maior que um", ou seja, seria absolutamente normal falarmos "minhas flor tão bonita" ou "traz as cadeira aqui", afinal, entende-se que é mais do que uma, ou seja, o português não-padrão "corta todas as marcas "supérfluas", redundantes".
Bagno afirma que os pesquisadores da lingüística no Brasil usam o critério escolaridade para definir como culto ou não o português de cada indivíduo, ou seja, para esses pesquisadores o falante culto é aquele que tem curso superior completo. Mas essa classificação não ocorre somente no Brasil. Nos Estados Unidos há diferença entre a fala de negros e brancos, ou seja, lá os brancos são mais "cultos". Na Inglaterra há 3 divisões sociais e uma variedade chamada de "inglês da Rainha", que seria então a norma culta daquele país. Para Bagno, "a classificação de uma variedade como (mais culta) é uma questão de grau de freqüência", ou seja, ele terá que "praticar" frequentemente sua forma de falar, caso contrário, poderá sofrer influências de outras variedades lingüísticas, deixando de ser "culto".
O autor afirma ainda que "é muito pequena a parcela de nossa população que consegue alcançar a classificação de falante culto", isso ocorre devido a má distribuição de renda de nosso país que não possibilita acesso à escolarização para todas as pessoas. Diz ainda que "existe uma pressão muito grande dos defensores de norma padrão de fazer com que ela fique inalterada, compacta e sólida, mas isso não é impossível", principalmente porque toda língua sofre influências de outras línguas. O português falado no Brasil hoje é uma mistura de línguas principalmente por causa da colonização por que passou.
As palavras herdadas do latim como abdome (abdômen), exame (examen), legume (legumen) sofreram desnalização quando passadas para o português, uma forma de mostrar o porquê de algumas palavras continuarem sofrendo essa desnalização na norma padrão, como é o caso de home (homem), garage (garagem), viagem (viagem), etc. ou seja o que era correto, passa ser considerado errado.
Ainda em conseqüência das migrações, Bagno cita também o porquê de troca de "L" por "R" como em Cráudia, grobo, ingrês... Isso acontece com essas palavras porque muitas delas eram com "L" em outras línguas e sofreram alteração quando passadas para o português, como é o caso de igreja que vem do latim ecclesia, do francês église e do espanhol iglesia, ou seja, só no português a palavra é com "R", então quando alguém fala Cráudia está apenas acompanhando essa mudança chamada de rotacismo.
Bagno exemplifica isso dizendo que até Camões, em Os Lusíadas escreve tanto inglês como ingrês, e em se tratando de Camões... Melhor não discutir!!!

Nenhum comentário: